MAS é um detalhe que faz muita diferença! (Jair Bolsonaro)

O candidato JAIR BOLSONARO fez seu pronunciamento após o resultado do primeiro turno das eleições e cometeu um erro básico que muitas pessoas cometem. Na tentativa de corrigir um problema, outro foi criado.


A FALA DO CANDIDATO

"(...) Afinal de contas, resta-nos apenas dois caminhos: o da prosperidade, o da liberdade, o da família, o de estar ao lado de Deus, ao lado daqueles que tem religião e dos que não têm religião também mas são responsáveis e, por outro lado, sobra-nos o caminho da Venezuela."

O PROBLEMA

Minha análise aqui é voltada à parte grifada "e dos que não têm religião também mas são responsáveis". Essa frase causa a impressão de que o Bolsonaro não considera que as pessoas sem religião sejam responsáveis, no geral. Ou que ele considera que ter religião faz alguém ser, necessariamente, responsável. De qualquer maneira, estas duas interpretações podem soar como ofensivas aos ouvidos dos que não têm religião.

ANÁLISE

Em primeiro lugar, volto minha atencão ao uso da palavra MAS. A palavra MAS é chamada na PNL de auxiliar linguístico que tem, como função, negar o que foi dito anteriormente. Por exemplo, uma coisa é escutar "eu te amo e precisamos conversar" e outra é escutar "eu te amo mas precisamos conversar". Imagine-se ouvindo estas duas frases e perceba que causariam em você efeitos diferentes. Não é? Um bom comunicador precisa ter controle do uso da palavra MAS e da palavra E, pois causam efeitos linguísticos opostos: uma subtrai e a oura soma.

Além disso, ao se prestar atenção na musicalidade da fala do candidato ao longo de todo o discurso, percebemos uma cadência, melodia e volume de som característicos do candidato. Porém, na parte grifada (escute no link acima), pode-se perceber uma leve mudança na cadência - a frase começa sem a pausa habitual -, com a voz um pouco mais aguda e um volume sonoro um pouco mais alto. Diferenças sutis como essas são reflexos de uma mudança no estado emocional. Esse tipo de comparação é chamado, na PNL, de Calibração Auditiva. Muito embora este seja um assunto técnico, a grande maioria das pessoas percebe variações como essas em um nível inconsciente e podem, segundo as pesquisas, causar nelas a impressão intuitiva do outro estar mentindo ou falando a verdade.

Somadas as duas observações acima, fico com a impressão de que o candidato, assim que disse "ao lado daqueles que têm religião", arrependeu-se. Possivelmente, boa parte do seu possível eleitorado não tem religião e ele estaria descartando esse grupo. Tentou, então, corrigir a fala imediatamente, o que refletiu na qualidade sonora da sua voz, conforme observamos, e, nesse leve descontrole, usou indevidamente a palavra MAS.

A SOLUÇÃO

Eu recomendaria ao candidato praticar ser mais genérico - i.e. em CHUNK-UP, na terminologia da PNL - ao falar de Deus e dos religiosos, se ele não quer afastar os sem-religião. Existem várias maneiras de se fazer isso. Por exemplo, ele poderia dizer "estar ao lado dos valores elevados" somente. Dessa maneira, os religiosos entenderiam que ele está falando de Deus e os sem-religião entenderiam a frase por um viés mais filosófico. Ou o candidato poderia dizer "estar ao lado dos que seguem valores espirituais elevados, seguindo uma religião ou não". Ou mesmo "estar ao lado daqueles que são responsáveis, tendo religião ou não". São várias as possibilidades que, se praticadas, estariam na ponta da língua.

Por gosto pessoal, eu escolho a seguinte opção como solução:

"(...) Afinal de contas, resta-nos apenas dois caminhos: o da prosperidade, o da liberdade, o da família, o de estar ao lado de Deus, ao lado daqueles que são responsáveis, tendo religião ou não e, por outro lado, sobra-nos o caminho da Venezuela."



-------------------------------------
* O TEXTO ACIMA, ASSIM COMO OUTROS TEXTOS DO BLOG, NÃO REPRESENTA A MINHA OPINIÃO OU JULGAMENTO EM RELAÇÃO AO TEMA OU AUTORES. ANALISO SOMENTE O FORMATO DO DISCURSO, NÃO SEU CONTEÚDO. 

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

JOÃO ADEUS?

O FASCÍNIO PELO BOLSONARO

Saia do balde que lá vem o chute (Jair Bolsonaro)