JOÃO ADEUS?


Clique aqui para assistir à reportagem do PEDRO BIAL e responda: na sua opinião, o JOÃO DE DEUS é culpado ou inocente? E com base no que você diz isso? Se você vem pensando como a maioria das pessoas, então ele é culpado e você está se baseando em argumentos como esses:
  • Se existe um número grande de mulheres acusando o João de Deus, então deve ser verdade.
  • Se a pessoa está sofrendo com a exposição na mídia, então deve ser verdade.
  • Se as histórias dos abusos, contadas por pessoas diferentes, são muito parecidas, então deve ser verdade.
  • Se foi falado por um jornalista conceituado, então é verdade.

No dia seguinte à exibição da matéria na TV, as pessoas já começaram a se posicionar:

FONTE: globoplay.globo.com/v/7218662/

Mas, sendo racional, essas conclusões não parecem prematuras? Enfim, há algum erro de lógica nesses argumentos? Ou não?

O SER HUMANO NÃO É UM ROBÔ 


Se você fosse um computador ao invés de um ser humano, ou seja, se você fosse completamente racional ao invés de alguém que é influenciado pelas emoções, provavelmente diria que aqueles argumentos não são muito convincentes. Vou me explicar através de um exemplo bem simples:

Considere as pessoas que dizem que avistaram DISCOS VOADORES: são milhares de pessoas que disseram isso ao redor do mundo, um número muito maior do que as que estão acusando o João de Deus. Os relatos são parecidos entre si e, por fim, quando revelam que avistaram os ET’s, eles estão se expondo na mídia à chacota e acusações de loucura.

Podemos dizer que os três primeiros argumentos que apresentei anteriormente são também válidos nesse caso mas, nem por isso, a maioria das pessoas acredita em disco voador, não é?

Quanto ao Pedro Bial ser conceituado, em nenhum momento o jornalista acusa o João de Deus de realmente ter cometido estes crimes. No tempo 00:40 da entrevista, o Bial diz "escutamos dez mulheres que se sentiram abusadas” e não "escutamos dez mulheres que foram abusadas". Ele só diria “mulheres que foram abusadas” se realmente tivesse certeza.




Então, se seu pensamento fosse tão lógico quanto o de um robô, teria respondido às perguntas do primeiro parágrafo assim:

Eu não sei responder. Há suspeitas de que o João de Deus é culpado mas é preciso haver investigação e um julgamento justo antes de afirmarmos sua culpa ou inocência”.


CÉREBRO: RAZÃO X EMOÇÃO

Por que pensamos de maneira diferente nos casos do João de Deus e dos avistadores de OVNI’s? A grande diferença entre eles é o lado emocional: os relatos sobre o João de Deus geram emoções de medo e raiva. e os relatos dos OVNI’s, por outro lado, causam curiosidade, maravilhamento e graça. A diferença é, portanto, no tipo de emoção.

Sabemos, pelas pesquisas atuais, que diferentes tipos de emoção acionam diferentes tipos de circuitos cerebrais. Quando estamos em um estado emocional neutro ou positivo, o NEOCÓRTEX está no comando. O Neocórtex é a parte que nos faz pensar e agir de forma racional. Quando estamos sentindo emoções negativas ou ameaçadoras, o Neocórtex perde esse comando para o SISTEMA LÍMBICO. O Sistema Límbico nos faz reagir de forma emocional e com menos lógica. 

A Natureza foi sábia ao fazer o cérebro humano funcionar desta maneira. Imagine-se na época em que vivíamos nas cavernas e você suspeita que há um animal agressivo perto... é melhor assumir que ele está lá e sair correndo imediatamente, não é? Mas, se você quiser ser racional ao extremo e só sair correndo quando tiver certeza de que o animal está lá, pode ser tarde demais. Há casos em que a resposta emocional aumenta a chance de sobrevivência e nossa espécie pode estar viva graças a este mecanismo de liga-desliga entre o Neocórtex e o Sistema Límbico. Para verificar pesquisas sobre este assunto, leia os livros da Bibliografia Sugerida.



Ao escutarmos uma história bem contada, criamos uma cena em nossa imaginação. Vivenciamos mentalmente a história como se estivéssemos lá, sendo uma testemunha ou nos colocando no lugar dos personagens. Como o cérebro não sabe diferenciar muito bem a realidade da imaginação ,sentimos emoções reais. É o que acontece quando lemos um livro, não é? No caso das histórias sobre o João de Deus, acabamos por sentir emoções reais de medo, raiva, etc. Assim, essas emoções capturam a nossa atenção, “desligam” o Neocórtex e passamos a aceitar argumentos que parecem corretos, sem muito uso da lógica. 

O QUE DEVERIA SER DITO?


Não quero, nesse post, defender o João de Deus pois o meu cérebro também me diz que ele é culpado. Porém, acredito ser importante sabermos que nosso cérebro nem sempre funciona como pensamos. Talvez, a melhor maneira de agir na vida pessoal seja: aprender a reconhecer quando você está em um estado alterado para, assim, tomar cuidado ao julgar os outros e ao tomar decisões em função deste julgamento.

Então, quando alguém pedir sua opinião sobre casos como o do João de Deus, você diria:

Não quero me posicionar pois esses depoimentos me fizeram sentir raiva dele, e sei que isso influencia o cérebro, afetando negativamente o lado racional e a capacidade de julgamento”.

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BIBLIOGRAFIA SUGERIDA

- "Supersentido: Porque acreditamos no inacreditável", Bruce M. Hood, Editora Novo Conceito
- "Subliminar: como o inconsciente influencia nossas vidas", Leonard Mlodinow, Editora Zahar

AOS ESTUDANTES DE HIPNOSE:

Tecnicamente falando, quando estamos com raiva, medo, nojo, etc, ou seja, sentindo as emoções que acionam o Sistema Límbico e "desligam" o Neocórtex, podemos dizer que estamos em um TRANSE HIPNÓTICO. 

Quando levamos um susto, entramos nesse estado e muitas técnicas de HIPNOSE RÁPIDA funcionam justamente com base nesse fenômeno. Na técnica do ARM PULL, por exemplo, surpreende-se a pessoa com um puxão no braço. Esse susto momentâneo "desliga" o Neocórtex diminuindo, assim, a mente crítica e aumentando a sugestionabilidade. Nesta hora, o Hipnotizador diz "dorme" e a pessoa tende a seguir o comando.
Também, ao escutarmos uma história bem contada, iniciamos a entrada no Transe e, quando a narrativa nos faz sentir medo, esse Transe se aprofunda. Neste estado, reagimos de forma inconsciente, sem grandes interferências da mente crítica e em função de pequenas pistas (MINIMAL CUES). Chamamos isso de SUGESTIONABILIDADE.

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Escrito por Leonardo Silvério

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